Coluna Nutrição Além do Prato
O corpo da mulher não é tendência: a saúde vai além da aparência
Ao longo da história, poucas coisas foram tão vigiadas, comentadas e moldadas quanto o corpo feminino. Em diferentes épocas, os padrões mudaram: já foi desejado um corpo mais curvilíneo, depois extremamente magro, depois atlético, depois “natural”. Mas existe um ponto em comum entre todos esses momentos. As mulheres sempre foram incentivadas a adaptar o próprio corpo para caber em um ideal externo.
Na prática, isso significa que muitas crescem
acreditando que precisam estar em constante ajuste. Em dieta, tentando
emagrecer, tentando definir, tentando reduzir medidas ou tentando “corrigir”
algo que, na verdade, nunca esteve errado. O problema é que esse processo tem
um custo que muitas vezes não aparece nas fotos das redes sociais nem nas
promessas de transformações rápidas.
Ser magra, por exemplo, nunca foi sinônimo automático de
saúde. Uma pessoa pode ter baixo peso e, ainda assim, apresentar baixa massa
muscular, alimentação desequilibrada, carência de nutrientes, alterações
hormonais, fadiga constante ou um relacionamento difícil com a comida. Da mesma
forma, alguém que não corresponde exatamente ao padrão estético vigente pode
ter bons indicadores metabólicos, boa capacidade física, equilíbrio alimentar e
uma relação saudável com o próprio corpo.
Quando a saúde é reduzida apenas à aparência, perde-se a
oportunidade de olhar para o que realmente sustenta o bem-estar ao longo da
vida. Saúde envolve energia para viver o dia a dia, força física, estabilidade
emocional, qualidade do sono, funcionamento hormonal adequado e uma relação
equilibrada com a alimentação e com o próprio corpo.
Muitas mulheres pagam um preço alto para tentar se encaixar
em padrões que mudam o tempo todo. Dietas extremamente restritivas, culpa ao
comer, ciclos de restrição e compensação, treinos exaustivos, comparação
constante e uma sensação permanente de que nunca é suficiente. Esse tipo de
pressão não impacta apenas o corpo. Afeta autoestima, saúde mental e a forma
como a mulher ocupa espaços na própria vida.
Cuidar da saúde vai muito além de perseguir um formato
corporal específico. O verdadeiro autocuidado passa por construir uma rotina
que sustente o corpo e a mente de forma consistente. Alimentar-se bem não
significa viver em restrição permanente, mas aprender a nutrir o corpo com
equilíbrio, variedade e consciência. Movimentar-se não precisa ser punição para
compensar excessos, mas uma forma de fortalecer o corpo e melhorar a qualidade
de vida.
Autocuidado também envolve outros aspectos muitas vezes negligenciados. O ambiente em que se vive, as relações que se constrói, a forma como se lida com o descanso, o nível de estresse e até o espaço que a mulher se permite ocupar no mundo. Tudo isso influencia diretamente saúde e bem-estar.
Talvez uma das reflexões mais importantes neste Dia da Mulher seja justamente
essa: o corpo feminino não precisa acompanhar tendências. Ele precisa ser
respeitado, cuidado e valorizado em sua complexidade. Mais do que caber em um
padrão, a verdadeira conquista é construir uma relação mais consciente, gentil
e sustentável com o próprio corpo.
Porque saúde não é apenas a aparência que se vê. É a base que sustenta a vida que se vive.
Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela
UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua
com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre
com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus
textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real.
Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.
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