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Design exibe luvas extensoras biônicas criadas para o pianista e maestro João Carlos Martins

Criador da luva biônica de maestro testa novo exoesqueleto em Sumaré

Após 20 anos de pesquisas e estudos, design industrial está prestes a finalizar o protótipo do VB EXO, equipamento mecânico de baixo custo, capaz de ajudar pessoas paraplégicas a andar, levantar e se sentar, com estrutura funcional

Em poucos minutos de conversa, percebe-se a paixão do design industrial Ubiratan Bizarro Costa, o Bira, pela criação de produtos inclusivos que ajudam pessoas com deficiência física a se movimentar e interagir melhor com o mundo. Foi com essa empatia que o morador de Sumaré ganhou fama internacional, em 2019, ao inventar, voluntariamente, a luva extensora biônica que fez o maestro João Carlos Martins voltar a tocar piano com todos os dedos. Agora, Bira testa o exoesqueleto VB EXO, um equipamento mecânico de baixo custo que tem a função de ajudar pessoas paraplégicas a andar, levantar e se sentar.

O projeto do VB EXO começou bem antes de Bira desenvolver as luvas biônicas para o maestro. Desde 2014, o design trabalha no protótipo do exoesqueleto, sua primeira invenção como design inclusivo. Segundo ele, o objetivo é tornar o equipamento mecânico mais barato e acessível para quem precisa, se comparado à tecnologia cara e complexa dos exoesqueletos disponíveis no mercado.

Quando estiver pronto, o equipamento mecânico terá a função de ajudar pessoas sem movimento da cintura para baixo a levantar, andar e se sentar. Além disso, explica Bira, por facilitar o ato de ficar em pé e até voltar a caminhar, o VB EXO promete benefícios fisiológicos e mentais ao usuário como melhoria na força muscular, na função circulatória, digestiva e respiratória, sem falar no aumento da autoestima e qualidade de vida.

Bira durante demonstração do funcionamento do exoesqueleto VB EXO no Youtube

O protótipo é feito em materiais como aço, alumínio, fibra de vidro, policarbonato, dentre outros. O equipamento não requer motores, conexões elétricas ou baterias, microcomputadores complexos, peças e manutenções caras.

“Pessoas que tenham movimentos normais da cintura para cima poderão “vestir” esse equipamento, que fará ela andar... Eu sempre falo desse projeto porque estou nele há mais de 20 anos. Estou no protótipo há 10, fazendo, refazendo. Agora estou quase acabando”, comemora o design.

Segundo Bira, os exoesqueletos que existem custam entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão por causa da alta tecnologia aplicada. É o caso do equipamento testado pela senadora Mara Gabrilli, em 2023, chamado de Atalante X, fabricado nos Estados Unidos, com tecnologia que proporciona mobilidade a pessoas com deficiência e dá autonomia aos seus movimentos. Mara ficou tetraplégica após um acidente de carro, em 1994.

“Quando comecei a criar o exoesqueleto, pensei: quantos conseguem comprar os que já existem? Então, comecei a estudar se dava para criar uma coisa mais simplificada, enxugada, para baixar o preço... Fiquei alguns anos com essa ideia na cabeça, até que, em 2014, comecei a trabalhar o protótipo...”, contou.

A solução foi a criação de um exoesqueleto com estrutura totalmente mecânica, que deve custar em torno de R$ 20 mil, conforme estimativa de Bira. “Para chegar nisso, eu tirei tudo dele, deixei pelado: não tem motor, não tem computador, nada disso que os eletrônicos têm. Se fosse para fazer igual os que existem era só comprar dos outros. Queria criar um produto acessível, com bom preço, mais barato”, assinala.

TOTALMENTE NACIONAL

Agora, o design está na fase final do protótipo, que já foi testado por cinco rapazes paraplégicos. “Todos andaram, menos um. Com os testes vou aperfeiçoando o equipamento. Devo concluir em mais um mês e fazer mais testes”, comenta.

Bira explica que o VB EXO é como uma academia que a pessoa veste. “Quem faz o esforço físico é o próprio cadeirante. Ele é o motor do equipamento, vai ter que ter treinamento e o esforço de conseguir andar. As costas da pessoa é que comanda o movimento da estrutura”, detalha.

Após concluir o protótipo, Bira informa que conseguirá fabricar o equipamento somente por encomenda. “Não tenho fábrica. Seria muito legal se conseguisse encontrar uma fábrica... Vou ter que fazer um a um, na mão, por encomenda. Esse tipo de exoesqueleto é inédito no Brasil, totalmente nacional, bem simples e acessível”, observa o design industrial, que coloca o seu talento a serviço da inclusão.

DESIGN AJUDOU PIAISTA FAMOSO VOLTAR A TOCAR 

Bira já testava o protótipo do exoesqueleto VB EXO quando viu o famoso maestro João Carlos Martins anunciar sua despedida do piano durante uma entrevista ao programa Fantástico, exibido pela Rede Globo, em fevereiro de 2019.

O músico, um dos maiores pianistas do mundo, ia parar de tocar antes se submeter a sua 24ª cirurgia, na tentativa de corrigir os problemas que afetaram os movimentos de suas mãos causados pela distonia focal, um distúrbio neurológico caracterizado por contrações musculares involuntárias e repetitivas em uma parte específica do corpo.

“A declaração me impactou. Daí pensei: estou fazendo um equipamento para o corpo inteiro, para fazer as pessoas andarem, será que não tem como fazer um pequeno, simples, só para a mão? No dia seguinte, comecei a trabalhar nessa ideia”, relembra o design.

Bira diz que o protótipo inicial das luvas passou por várias modificações até chegar ao modelo que atendesse às necessidades específicas do maestro. A primeira versão das luvas foi apresentada ao pianista em Sumaré. Como Bira não tinha contato com o músico, aproveitou uma apresentação de João Carlos Martins na cidade, para entregar o acessório biônico.

“Bati no camarim... O maestro me deixou entrar, pouco antes do concerto. Ele viu a luva, achou estranho e percebeu, na hora, que não conseguiria tocar com aquilo. Só que eu não sabia como funcionava a mão dele, só sabia que ele não abria a mão e só tocava com os polegares. Entreguei o protótipo, dei meu telefone, tiramos fotos, fui embora”, rememora o design.

O maestro João Carlos Martins voltou a tocar piano com as luvas biônicas inventadas por Bira

Dias depois, Bira recebeu um telefonema do maestro convidando-o para almoçar em sua casa. Durante o encontro, João Carlos Martins mostrou ao design suas mãos e como funcionava cada dedo. “Aí tive um briefing do trabalho e o desafio de como fazer uma luva que ajudasse ele a movimentar os dedos para tocar piano”, disse o design.

Bira voltou para casa e começou a estudar uma solução. Até que a ideia veio, inspirada no sistema de suspensão traseira de carros de Fórmula 1, esporte do qual o design é fã. As luvas foram criadas com hastes que funcionam como molas, auxiliando na abertura e fechamento dos dedos, um projeto minimalista que prioriza a simplicidade e funcionalidade da peça.

O novo protótipo ficou pronto em duas semanas. “Fiz as lâminas primeiro, que tem um chassi na parte de cima, e a modelagem das peças em 3D no computador. Depois, joguei para a impressora imprimir as peças, que compõem a parte mecânica, em seguida a parte do tecido, velcros para fechamento, borrachinhas de proteção... Faço a impressão de cada parte e vou montando. Fiz as luvas e levei de novo para o maestro experimentar. Foi um presente para ele ‘brincar’ no final de semana. Ele começou tocar com aquilo e não parava mais. Daí deu certo”, conta.

O pianista ficou três meses testando as luvas. Quando voltou a tocar com todos os dedos com a ajuda do acessório mecânico, o músico publicou a conquista em seu perfil no Instagram. “Eu biônico, encostando todos os dedos nas teclas. O designer de produtos Bira, da cidade de Sumaré, criou esse aparelho para que eu possa usar todos os dedos além dos dois polegares. Aos 79 anos, não prometo nada, mas comecei a estudar outra vez do zero, como uma criança”, escreveu João Carlos Martins, em dezembro de 2019.

“A postagem repercutiu no mundo inteiro...Foi uma loucura. Meu telefone não parava de tocar, todo mundo atrás de mim, querendo entrevista. Outras pessoas queriam uma luva igual... Sumaré ficou famosa no mundo. Hoje, o maestro diz que as luvas viraram uma extensão do seu corpo. É muito gratificante”, afirma Bira.         

AGORA, INVENÇÃO AUXILIA PESSOAS COM LIMITAÇÃO FÍSICA NAS MÃOS APÓS AVC

Atualmente, a luva biônica ajuda, também, pessoas que tiveram os movimentos das mãos comprometidos, após AVC (Acidente Vascular Cerebral). Bira descobriu que as vítimas de AVC têm uma característica parecida com a distonia focal, o distúrbio neurológico desenvolvido pelo maestro João Carlos Martins, que é a de abrir as mãos e não conseguir fechar mais. Com o acessório mecânico, é possível recuperar pelo menos parte dos movimentos, diz o design.

O equipamento pode ser adquirido somente pelo site oficial www.luvaleb.com.br por R$ 749,00 cada unidade. O par custa R$ 1.498,00. Bira vende cerca de 50 luvas por mês, mas diz que a satisfação vem do reflexo que o acessório tem na vida das pessoas. “Muita gente me agradece por ter a luva. Conseguem, por exemplo, pegar um copo, o que antes não era possível. Não resolve 100%, mas ajuda muito”, observa.

No auge da fama pela confecção das luvas biônicas do maestro, Bira participou do programa Caldeirão do Huck, na rede Globo, no quadro The Wall, um jogo de perguntas e respostas que valia prêmio em dinheiro. Bira aceitou o convite porque queria levantar recursos para confeccionar um lote de 30 luvas para doação, além de investir no projeto do exoesqueleto. “Levantei uma boa grana e alcancei o objetivo”, comenta.

Agora, Bira pensa em testar a luva extensora biônica para ajudar pessoas com Alzheimer, que apresentam tremor nas mãos. Segundo especialistas, embora os tremores sejam mais comuns na doença de Parkinson, esse desconforto pode ocorrer, também, como parte da progressão da doença de Alzheimer, especialmente em estágios intermediários e avançados da doença.

Bira, 61 anos de idade, nasceu em São Paulo. Há 30 anos mora em Sumaré, onde mantém seu escritório, o Bizarro Design, e uma escola de desenho, a Traço Bizarro. Durante o dia, fica no escritório onde pesquisa e desenvolve projetos diversos. Lá tem uma oficina e monta seus protótipos.

“Sou apaixonado por essa área. Fico o dia inteiro criando. Digo que eu não trabalho, me divirto, por isso não fico rico”, afirma o design com um largo sorriso.

À noite, o criador das luvas biônicas do maestro, dá aula de desenho e design industrial na Traço Bizarro, para onde leva todo o seu conhecimento técnico, o alicerce do seu sucesso.


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