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Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade

Coluna Nutrição Além do Prato

O corpo virou vitrine.

E isso está custando vidas

Nos últimos anos, o uso de anabolizantes e outros recursos estéticos deixou de ocupar espaços restritos do fisiculturismo e passou a fazer parte da cultura cotidiana. Hoje, esse tipo de prática aparece nas redes sociais de forma cada vez mais naturalizada, frequentemente associado a sucesso, disciplina, beleza, performance e reconhecimento. E talvez esse seja um dos pontos mais preocupantes de todo esse cenário. Porque não estamos falando apenas de substâncias. Estamos falando de uma cultura que reforça, valida e muitas vezes incentiva comportamentos de risco em troca de aprovação estética.

A morte recente de um jovem influenciador de apenas 22 anos reacendeu esse debate. E, embora cada caso tenha suas particularidades, ignorar o contexto social que envolve essa realidade seria um erro. Existe hoje uma pressão estética extremamente intensa, acelerada pelas redes sociais, pelos filtros, pela exposição constante da imagem e pela lógica de recompensa imediata. Corpos extremamente musculosos, secos e muitas vezes incompatíveis com a fisiologia natural passaram a ser vistos não apenas como desejáveis, mas como metas possíveis e até esperadas.

Junto disso surge outro problema importante: a romantização do excesso. Muitas vezes, os riscos aparecem minimizados diante dos resultados visuais. A transformação física recebe aplausos, engajamento, admiração e validação social. E isso cria um reforço psicológico muito poderoso. A pessoa é elogiada o tempo todo, ganha seguidores, recebe comentários exaltando sua aparência, sua “evolução” e sua disciplina. E, pouco a pouco, aquilo que começou como busca estética pode se transformar em uma relação distorcida com o próprio corpo e com os próprios limites.

O problema é que o corpo humano não interpreta excesso como estética. Interpreta como sobrecarga. O uso abusivo de anabolizantes pode trazer consequências graves para o sistema cardiovascular, fígado, rins, saúde hormonal e saúde mental. Alterações de humor, ansiedade, compulsividade, agressividade, infertilidade, disfunções hormonais e aumento do risco cardiovascular são apenas algumas das possíveis consequências já descritas na literatura científica. E existe um detalhe importante que muitas vezes fica escondido atrás das imagens de “resultado”: nem sempre os danos aparecem imediatamente. Em muitos casos, o corpo continua performando, treinando e aparentando saúde enquanto processos internos importantes já estão sendo comprometidos.

Outro ponto preocupante é a forma como essas práticas vêm sendo disseminadas. Hoje, adolescentes e adultos jovens consomem diariamente conteúdos que associam valor pessoal à aparência física extrema. E muitas vezes essas informações chegam sem contexto, sem responsabilidade e sem qualquer discussão real sobre risco. A ideia vendida costuma ser sedutora: resultado rápido, corpo ideal, alta performance, aprovação social. Mas raramente se fala sobre o custo físico, psicológico e emocional envolvido nisso.

Talvez uma das reflexões mais importantes seja justamente essa: quando corpos adoecidos passam a ser vistos como referência de sucesso, existe algo profundamente distorcido acontecendo na forma como entendemos saúde.

Porque saúde não deveria ser medida apenas por aparência. Ter músculos aparentes, baixo percentual de gordura ou um corpo admirado nas redes sociais não significa, necessariamente, que existe equilíbrio fisiológico, saúde hormonal, bem-estar emocional ou qualidade de vida por trás daquela imagem. Isso não significa demonizar o esporte, a musculação ou a busca por evolução física. Exercício, treinamento e cuidado com o corpo são ferramentas extremamente importantes para saúde e qualidade de vida. O problema começa quando performance estética vale mais do que saúde, quando o limite do corpo deixa de ser respeitado e quando o aplauso coletivo passa a reforçar práticas que colocam vidas em risco.

Talvez esteja na hora de discutir não apenas o uso dessas substâncias, mas também o tipo de cultura que estamos alimentando ao transformar corpos em vitrine e sofrimento em disciplina. Porque, no fim das contas, nenhum resultado estético deveria custar a própria saúde.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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