Colunas
Marina Rocha Luciano atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida

Coluna Nutrição Além do Prato

Queimar mais gordura durante o treino não significa emagrecer mais

“Treinar em jejum faz o corpo queimar mais gordura.” Essa é uma afirmação bastante comum em academias e nas redes sociais e, curiosamente, existe uma parte verdadeira nela. O problema aparece quando uma resposta fisiológica real é utilizada para chegar a uma conclusão que não necessariamente é verdadeira: se estou utilizando mais gordura durante o exercício, então vou emagrecer mais.

Nosso corpo utiliza diferentes fontes de energia para sustentar o exercício, principalmente carboidratos e gorduras. A participação de cada uma varia conforme fatores como intensidade e duração do treino, alimentação, nível de treinamento e disponibilidade de energia. Em determinadas condições, como após algumas horas sem comer, a disponibilidade de carboidratos e o ambiente hormonal favorecem uma maior participação da gordura como combustível. Portanto, em muitos exercícios realizados em jejum, especialmente em intensidades baixas ou moderadas, realmente podemos observar maior oxidação de gordura durante aquela sessão.

Mas aqui está a diferença fundamental: usar mais gordura como combustível naquele momento não significa necessariamente perder mais gordura corporal ao longo do tempo. O organismo não encerra suas contas quando o treino termina. Ao longo das horas seguintes, continuamos armazenando e utilizando carboidratos e gorduras de acordo com aquilo que comemos, gastamos e fazemos durante todo o dia. Por isso, quando o objetivo é emagrecimento, o balanço energético ao longo do tempo e a capacidade de manter uma estratégia alimentar adequada têm muito mais importância do que tentar maximizar a utilização de gordura durante uma hora específica do dia.

Quando estudos comparam exercício realizado em jejum ou após alimentação e controlam fatores importantes, a maior oxidação de gordura durante a sessão em jejum não se traduz necessariamente em maior perda de gordura corporal ao longo das semanas. Essa distinção é importante porque mostra como um mecanismo fisiológico pode ser verdadeiro e, ainda assim, ser utilizado de maneira equivocada para vender uma conclusão muito maior do que a evidência permite.

Existe ainda outra questão que costuma ficar esquecida nessa discussão: performance. Conforme a intensidade do exercício aumenta, o carboidrato passa a ter um papel cada vez mais importante na produção rápida de energia. Isso é especialmente relevante em atividades que exigem velocidade, potência ou esforços intensos e repetidos, como corrida em ritmos mais altos, musculação, CrossFit, futebol, vôlei e lutas. Nesses contextos, começar determinados treinos com baixa disponibilidade de carboidratos pode comprometer a capacidade de sustentar intensidade, volume ou qualidade do treinamento.

Isso significa que ninguém deveria treinar em jejum? Também não. Algumas pessoas se sentem bem realizando sessões leves sem comer antes, seja por preferência, conforto gastrointestinal ou organização da rotina. No esporte, estratégias de treinamento com baixa disponibilidade de carboidratos também podem ser utilizadas de maneira planejada em situações específicas, buscando determinadas adaptações metabólicas. Mas existe uma enorme diferença entre uma estratégia periodizada, aplicada com objetivo definido, e simplesmente retirar o alimento antes do exercício acreditando que isso fará o corpo eliminar mais gordura.

Talvez parte da confusão aconteça porque usamos a expressão “queimar gordura” para falar de fenômenos diferentes. Uma coisa é a gordura sendo utilizada como combustível naquele momento. Outra é reduzir os estoques de gordura corporal ao longo de semanas ou meses. E uma terceira questão é produzir o melhor desempenho possível durante o exercício. As três coisas se relacionam, mas não são sinônimos.

Por isso, antes de perguntar se é melhor treinar em jejum ou alimentado, existe uma pergunta mais importante: qual é o objetivo daquele treino? Uma caminhada leve pela manhã, um treino longo de corrida, uma sessão intensa de musculação e uma luta de jiu-jitsu impõem demandas completamente diferentes ao organismo. A estratégia nutricional também deveria acompanhar essas diferenças.

Seu corpo usar mais gordura durante um exercício é apenas uma informação sobre qual combustível está sendo utilizado com maior participação naquele momento. Não é uma medida de quanto você vai emagrecer e muito menos de quão eficiente foi o seu treino. Quando alimentação e exercício são pensados em conjunto, o objetivo deixa de ser simplesmente “queimar mais gordura” e passa a ser oferecer ao corpo o combustível adequado para aquilo que queremos que ele seja capaz de fazer.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

Deixe um comentário