Coluna Nutrição Além do Prato
Emagrecer com GLP-1 significa perder músculo?
Com o crescimento do uso de medicamentos como Mounjaro,
Ozempic e Wegovy, uma preocupação também ganhou espaço nas redes sociais: a
perda de massa muscular. De um lado, há quem diga que essas medicações
“destroem músculo”. Do outro, quem praticamente desconsidera essa
possibilidade. Estudos publicados recentemente ajudam a colocar essa discussão
em um lugar muito mais interessante e menos alarmista.
Quando alguém perde uma quantidade significativa de peso, é
esperado que nem tudo o que desapareça da balança seja gordura. Uma parte
costuma vir da chamada massa magra, que inclui músculos, mas não apenas eles.
Isso acontece também em processos de emagrecimento sem medicamentos. Portanto,
a primeira coisa importante é entender que perder massa magra durante o
emagrecimento não é uma particularidade do Mounjaro, Ozempic, Wegovy ou de
outros medicamentos dessa família.
Uma análise recente de estudos clínicos encontrou perda de
massa magra durante o tratamento com esses medicamentos, mas mostrou também que
a perda de gordura tende a ser proporcionalmente maior. Na prática, a pessoa
pode terminar o processo pesando menos, com menos massa magra em números
absolutos, mas com uma proporção corporal mais favorável porque perdeu ainda
mais gordura.
Outra publicação recente, reunindo mais de 15 mil
participantes, chegou a uma conclusão igualmente importante: aproximadamente um
quarto a pouco mais de um terço do peso perdido com essas medicações pode
corresponder à massa magra. Parece muito quando o número aparece sozinho, mas a
proporção foi semelhante à observada em pessoas que emagreceram apenas com
mudanças no estilo de vida.
Isso muda bastante a pergunta que deveríamos fazer. Talvez a
questão não seja simplesmente “Mounjaro faz perder músculo?”, mas sim: como
essa pessoa está emagrecendo e o que está sendo feito para preservar sua massa
muscular durante o processo?
Porque aí existem fatores sobre os quais podemos agir.
O treinamento de força é um deles. Nos estudos, quando o
processo de emagrecimento incluía treinamento resistido, a preservação de massa
magra era melhor. Uma ingestão adequada de proteínas também é importante, assim
como garantir que a redução do apetite provocada pela medicação não transforme
a alimentação em uma restrição exagerada.
Esse último ponto merece atenção. Medicamentos como
Mounjaro, Ozempic e Wegovy podem reduzir bastante a fome e facilitar uma perda
expressiva de peso.
Para algumas pessoas, isso representa um avanço enorme no
tratamento da obesidade. Mas comer muito menos não significa necessariamente
estar comendo melhor. Se a pessoa passa a consumir pouca energia, pouca
proteína, não treina força e acompanha apenas o número da balança, existe o
risco de comemorar os quilos perdidos sem prestar atenção suficiente na
qualidade desse emagrecimento.
E talvez seja justamente aí que a discussão sobre músculo
seja mais útil.
Duas pessoas podem perder dez quilos e chegar ao final desse
processo em condições bastante diferentes. Uma pode ter preservado melhor sua
musculatura, força e capacidade física. A outra pode simplesmente ter ficado
dez quilos mais leve. A balança, sozinha, não consegue mostrar essa diferença.
Nada disso transforma esses medicamentos em vilões. Eles
representam um avanço importante no tratamento da obesidade quando bem
indicados. Mas também não faz sentido tratar a perda de peso como se qualquer
redução na balança fosse automaticamente um bom resultado. Os estudos mais
recentes estão ajudando justamente a tirar essa discussão dos extremos.
Dizer que “Mounjaro destrói músculo” é simplista. Dizer que
não existe perda de massa magra também é. Ela pode acontecer, como acontece em
outros processos de emagrecimento, e precisa ser manejada.
Talvez a chegada de medicamentos cada vez mais eficazes para
perda de peso esteja nos obrigando a fazer uma pergunta que deveríamos ter
feito há muito tempo: não apenas quanto peso uma pessoa perdeu, mas o que ela
perdeu junto com ele.
Porque emagrecer não deveria ser apenas fazer a balança
descer. A qualidade do peso que se perde também importa.
Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela
UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua
com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre
com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus
textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real.
Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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