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Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade

Coluna Nutrição Além do Prato

Emagrecer com GLP-1 significa perder músculo?

Com o crescimento do uso de medicamentos como Mounjaro, Ozempic e Wegovy, uma preocupação também ganhou espaço nas redes sociais: a perda de massa muscular. De um lado, há quem diga que essas medicações “destroem músculo”. Do outro, quem praticamente desconsidera essa possibilidade. Estudos publicados recentemente ajudam a colocar essa discussão em um lugar muito mais interessante e menos alarmista.

Quando alguém perde uma quantidade significativa de peso, é esperado que nem tudo o que desapareça da balança seja gordura. Uma parte costuma vir da chamada massa magra, que inclui músculos, mas não apenas eles. Isso acontece também em processos de emagrecimento sem medicamentos. Portanto, a primeira coisa importante é entender que perder massa magra durante o emagrecimento não é uma particularidade do Mounjaro, Ozempic, Wegovy ou de outros medicamentos dessa família.

Uma análise recente de estudos clínicos encontrou perda de massa magra durante o tratamento com esses medicamentos, mas mostrou também que a perda de gordura tende a ser proporcionalmente maior. Na prática, a pessoa pode terminar o processo pesando menos, com menos massa magra em números absolutos, mas com uma proporção corporal mais favorável porque perdeu ainda mais gordura.

Outra publicação recente, reunindo mais de 15 mil participantes, chegou a uma conclusão igualmente importante: aproximadamente um quarto a pouco mais de um terço do peso perdido com essas medicações pode corresponder à massa magra. Parece muito quando o número aparece sozinho, mas a proporção foi semelhante à observada em pessoas que emagreceram apenas com mudanças no estilo de vida.

Isso muda bastante a pergunta que deveríamos fazer. Talvez a questão não seja simplesmente “Mounjaro faz perder músculo?”, mas sim: como essa pessoa está emagrecendo e o que está sendo feito para preservar sua massa muscular durante o processo?

Porque aí existem fatores sobre os quais podemos agir.

O treinamento de força é um deles. Nos estudos, quando o processo de emagrecimento incluía treinamento resistido, a preservação de massa magra era melhor. Uma ingestão adequada de proteínas também é importante, assim como garantir que a redução do apetite provocada pela medicação não transforme a alimentação em uma restrição exagerada.

Esse último ponto merece atenção. Medicamentos como Mounjaro, Ozempic e Wegovy podem reduzir bastante a fome e facilitar uma perda expressiva de peso.

Para algumas pessoas, isso representa um avanço enorme no tratamento da obesidade. Mas comer muito menos não significa necessariamente estar comendo melhor. Se a pessoa passa a consumir pouca energia, pouca proteína, não treina força e acompanha apenas o número da balança, existe o risco de comemorar os quilos perdidos sem prestar atenção suficiente na qualidade desse emagrecimento.

E talvez seja justamente aí que a discussão sobre músculo seja mais útil.

Duas pessoas podem perder dez quilos e chegar ao final desse processo em condições bastante diferentes. Uma pode ter preservado melhor sua musculatura, força e capacidade física. A outra pode simplesmente ter ficado dez quilos mais leve. A balança, sozinha, não consegue mostrar essa diferença.

Nada disso transforma esses medicamentos em vilões. Eles representam um avanço importante no tratamento da obesidade quando bem indicados. Mas também não faz sentido tratar a perda de peso como se qualquer redução na balança fosse automaticamente um bom resultado. Os estudos mais recentes estão ajudando justamente a tirar essa discussão dos extremos.

Dizer que “Mounjaro destrói músculo” é simplista. Dizer que não existe perda de massa magra também é. Ela pode acontecer, como acontece em outros processos de emagrecimento, e precisa ser manejada.

Talvez a chegada de medicamentos cada vez mais eficazes para perda de peso esteja nos obrigando a fazer uma pergunta que deveríamos ter feito há muito tempo: não apenas quanto peso uma pessoa perdeu, mas o que ela perdeu junto com ele.

Porque emagrecer não deveria ser apenas fazer a balança descer. A qualidade do peso que se perde também importa.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

 

 

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